Lembranças

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Por Célio Furtado

Escrevo na tranquilidade dessa noite após a chuva, ouvindo saxofone tenor, o jazz sempre improvisado e forte, motivando sempre o gosto por escrever, um privilégio, com certeza. Tenho recebido bons retornos, comentários generosos e estimulantes a respeito do meu exercício semanal de escrever, estabelecendo um diálogo transparente e edificante com todos aqueles me dedicam um pequeno tempo pessoal, particular, para a leitura dos meus textos.

Em artigo anterior, falo de dialética, um método de exposição, contrapondo o geral e o particular, estabelecendo a tese, antítese e síntese, como se diz, num eterno movimento de ideias, tentando compreender um pouco mais o que se denomina de realidade. Procuro me valer de coisas simples, paisagens domésticas, quintais e jardins bem organizados, casas elegantes e simples, como se dizia antigamente, em pequenos quadros: “lar doce lar”.

Aparentemente, os quintais antigos tinham, de fato, outros aspectos, mais árvores frutíferas, galinhas soltas, um bom galo inglês, valente e cantador e os elegantes galos garnisés, baixinhos e valentes. Cachorros, gatos e, nas casas de madeira, as sapatas, um vão embaixo, muito útil, para se guardar algumas coisas e também para a criançada se esconder, eventualmente. Naturalmente, hoje com a especulação imobiliária, os espaços estão mais caros, os quintais tem a dimensão mínima e, muita gente foi morar em apartamentos.

Gostava de ver minha mãe limpar os peixes, ali atrás num coxo separado, uma torneira, pia, e algum gato esperando pacientemente uma sobra, pois havia fartura, muito peixes e pescadores, além dos siris, pois todos nós sabemos que já fomos chamados, de papa siri, um apelido proveniente, provavelmente dos alemães de Blumenau. Um quintal tinha quase sempre algumas árvores necessárias, um pé de limão, goiaba, ameixa, abacate e uma pequena horta com temperos e verduras.

Percebo que os pés de ameixa amarela estão mais escassos, provavelmente porque eles atraiam os morcegos, que conforme a lenda, à noite eles entravam nas casas e chupavam o sangue, provocando, em algumas pessoas, a raiva. Na minha infância, sempre tinha, no quintal, repolho, alface, tomate, temperos. Minha mãe era prática como se dizia, uma polenta, repolho, carne moída já eram considerados um bom almoço, forte, dava o sustento e “segurava o dia”.

Adorava feijão e carne, eu comia bem, “pegava bem”, como toda criança saudável, sem frescura, comia de tudo, limpava o prato, como dizia a minha mãe. Lembro da frase da prudência e da economia, na mesa: “mais feijão e menos carne”, pois tudo é muito caro, muitas bocas para serem alimentadas, encher o bucho. Adorava o inverno de Itajaí, muito peixe, tainha à vontade, o frio e o gosto por jogar bola, ali no Cepilho, (atual edifício Liberty) e no “pasto”, entre o Hospital Marieta e a Cadeia.

O rádio exercia um fascínio, os programas de meio dia (Pudim Medeiros), o esporte, notícias do Barroso, os prefixos musicais. Não sou necessariamente um saudosista, as coisas evoluem, e, como dizia Marx, na dialética, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Eis a essência da coisa!

Célio Furtado é ex-professor da Universidade do Vale do Itajaí, comunicador e consultor de empresas.
E-mail: celio.furtado@univali.br

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