Emancipação Tecnológica

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Por Célio Furtado

Em artigo anterior mencionei o modelo de desenvolvimento econômico chinês como competente e bem sucedido, indiscutível sob vários aspectos, sendo que, rapidamente, a China vem se aproximando da dianteira do ranking mundial. Citei também o comando férreo do Partido Comunista Chinês, que planeja, financia, orienta e delimita os espaços, mas não sufoca a iniciativa privada nem a concorrência. Nesse sentido a China é um Estado empreendedor e deve ser estudado e seguido por todos os que buscam uma alternativa ao desenvolvimento, inclusive o nosso Brasil.

A pandemia obrigou muita gente a se resguardar, a ficar em casa e, inevitavelmente pensar na vida (incerta) e também no futuro do modelo vigente. Podemos afirmar que a “lua de mel” com o modelo neoliberal esgotou-se, de modo que a confiança na “mão invisível” do mercado, na concepção de Adam Smith, deteriorou-se e, graças ao SUS/ saúde pública e forças de segurança, podemos salvar inúmeras vidas da feroz pandemia que ainda sobrevive e persiste. O governo norte americano, na nova gestão Biden, está investindo pesadamente na economia local, estimulando construção, reformas, infra estrutura e tudo aquilo que possa gerar emprego e desenvolvimento sustentável.

Também reagi no artigo anterior aos argumentos comuns de que o comunismo não deu em anda; podemos retrucar: e a China que é comandada pelo poderoso e competente partido comunista? Um país que conseguiu a inclusão social de mais de 800 milhões de chineses, tirando-os de uma relativa pobreza para um padrão de vida não muito inferior ao mundo ocidental, “livre”, capitalista. Conseguiu manter um crescimento anual do PIB, invejável, continuo, com uma modernização tecnológica impressionante, uma competitividade econômica agressiva, basta olharmos as lojas “1.99”, espalhadas pelo mundo afora.

Volto a insistir na necessidade de nós brasileiros repensarmos o nosso modelo de crescimento interno, revertendo a desindustrialização preocupante, que coloca na ociosidade cabeças pensantes das engenharias e inovações tecnológicas, hoje, profissões sem prestigio como era antigamente. Nesse sentido devemos promover e incentivar a capacidade tecnológica e de produção, fazendo como os orientais fizeram, copiando, pirateando, fazendo a engenharia reversa e, principalmente, incutindo em nossa juventude o gosto pelas oficinas, laboratórios, cálculos matemáticos, o interesse pela física e pela ciência enquanto um todo.

A palavra “nacionalismo” por muito tempo passou a ser desgastada e colocada num patamar semântico inferior, tendo o significado de atraso. Não penso assim, estudei numa Escola de Engenharia de vanguarda, na UFRJ, onde se pensava e projetava se o conceito de tecnologia apropriada, ou seja, algo como a “tropicalização” de nosso potencial de realização, pois, sempre esteve claro a correlação existente entre desenvolvimento e emancipação tecnológica.

Se dúvida é o que os chineses, japoneses, coreanos e outros tigres asiáticos promoveram junto à população mais jovem, imprimindo, desde cedo, o conceito de qualidade total, exatidão, precisão, zero defeitos, tudo dentro de uma doutrina pragmática de atingirem a liderança no contexto das nações. Esse é o caminho, particularmente, sempre fui um entusiasta do ensino profissionalizante, estimulando a nossa criativa juventude ao progresso técnico e emancipação tecnológica.

Célio Furtado é ex-professor da Universidade do Vale do Itajaí, comunicador e consultor de empresas.
E-mail: celio.furtado@univali.br

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