Ordem mundial

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Por Célio Furtado

Ouço Caetano Veloso: “alguma coisa está fora da nova ordem mundial”, uma canção que há muito tempo não ouvia. Gosto dos filósofos baianos e penso, ao meu modo, algo que poderia ser chamado de civilização brasileira. Enquanto ouço esses versos penso no impasse que chegamos diante da escassez de recursos naturais, fome, poluição e uma violência desordenada nos campos e principalmente nos grandes centros urbanos. Crimes por motivos fúteis, violências nos gestos e palavras, os bloqueios diante de uma saída generosa com o próximo, uma desconsideração especial pela raça humana.

A gente percebe uma paisagem urbana destituída de carinho e respeito e, andando pelas ruas, “os automóveis parecem voar”, não há sentido nas coisas e as filas de desempregados aumentam. Alguns amigos leem e apreciam os meus escritos pois, esperam algo de novo e bom no desenrolar dos dias tão ásperos e iguais, enquanto o avião, no céu, aponta para o aeroporto de Navegantes. Vivemos em um paraíso ecológico e sabemos que vale a pena mergulhar nas águas de nossas praias, como por exemplo a Atalaia, molhando o corpo e observando o grande navio saindo pela Boca da Barra na direção de algum porto internacional, Europa, América, Asia, ou quem sabe, atravessará o canal do Panamá, entrando nas águas do Oceano Pacífico.

Lembro, porém, a ausência dos tíés sangue e das saíras de sete cor, as aracuãs continuam. Olho o mundo e vejo os chineses com a sua organização, o seu pragmatismo anunciando o poder amarelo inevitável, novas tecnologias, a ciência orientada ao poder bélico invencível. Vejo o nosso Ocidente decadente, drogas, violência, pornografia, o desmonte das massas urbanas perdidas, gente amontoada pelas ruas e calçadas, sem destino, sem perspectivas de um futuro melhor. Vejo ratazanas gordas e corajosas atravessando as ruas desertas da metrópole, o sereno da noite e a sirene das viaturas policiais estridentes e fatais, pois cada vez é maior a violência oficial, o direito à repressão pois não há outra forma de proteger a ordem estabelecida, “primeiro atire e depois pergunte”.

O escuro da noite, os becos as ruelas, seres humanos cambaleantes, gente procurando uma calçada melhor para tentar dormir e vencer a noite fria, na certeza de que o novo dia não apresentará nada melhor. Gosto da filosofia, liberar o verbo e observar o espetáculo urbano, os semáforos, os quintais e, sabendo que, como se vivêssemos em uma Detroit abandonada, com as suas casas fantasmas, o fim da era industrial, o fim da filosofia de Ford e de Taylor, o desmonte da produção em massa, a chegada dos japoneses/ chineses/tigres asiáticas.

Ouço a canção do compositor baiano e penso nos impasses, no desmatamento no discurso irracional dos donos do poder e tal como Sartre, penso na náusea da existência, o homem condenado a existir, “sem vento e sem documento”. Vou entrando com água até a cintura no mar da Atalaia e vejo o grande navio carregando cargas preciosas, “tanto negócio e tantos negociantes”, o jogo do sistema, diante da nova ordem mundial.

 

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