“LITERATURA” DE MASSA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

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No início destas reflexões creio oportuno invocar o juízo de Lucia Santaella,  doutora em Teoria Literária [PUC-SP]:  [é impossível] “separar as culturas eruditas, populares e massivas, pois os processos de caldeamento e mesclagem por que elas passam parecem evidentes.”

       Mas, por outro lado, a mim se afigura que não podemos, também, relegar ao cesto de lixo dos conceitos o lembrete dos jovens hegelianos do “Allgemeine Literaturzeitung” [Gazeta Literária]  : “O pior testemunho em favor de uma obra é o entusiasmo com que a massa a recebe.”

      A chamada “literatura de massa” inicia-se com o romance – publicado em “fatias”.

       Mesmo após o incremento da tecnologia reprodutiva de Gutenberg, o preço de um livro era inacessível para a “grande massa”.

       Em 1836, Émile de Girardin, dono do jornal francês “La Presse” – num lance de verdadeiro executivo “pós-História” de Wall Street  –, decide-se por publicar um novo produto: o “folhetim” [“roman-feuilleton”].

     O primeiro romance publicado em “capítulos” foi o balzaquiano “La Vieille Fille” [“A Solteirona”].

      Romances de nível, que nada tinham de “folhetinescos”, chegavam ao público pelo recurso do “feuilleton”. Ou seja: o [depois] casebre do esteticamente desvalido  servindo de maternidade para o luxo da sensibilidade exigente.

     Até aqui, simples interporosidade entre história da Literatura e história de seu irmão siamês, o Jornalismo.

     E daqui em diante é que estas considerações procuram nuclear-se em outra instância do folhetim [na sua acepção de subliteratura]: o “recado” que esse artefato – através da mídia [especialmente a televisiva] – “impinge”  a espíritos isentos [ou quase] de juízo-de-valor.    

         ”Formador de opinião” – “status” de que qualquer autor de telenovela reveste-se.

         Os valores – legítimos ou infectos – de um autor folhetinesco, ao transitarem pela trama de uma novela, convertem-se – com o perdão do “companheiro”  Immanuel Kant” – em infalível “imperativo categórico” para um percentual incrível da grande massa.

        A tal “inversão de valores” – o não-ético, tornando-se ético, a partir do momento em que satisfaz minha conta bancária ou minhas pulsões do baixo-ventre – , de que se queixam os cientistas sociais, tem causas e “autores” – não exatamente os  Joyces e Prousts  dos eruditos; nem mesmo os Heideggers e Foucaults   do “pensamento profundo” [quando muito, algum traço-diagnóstico de “marxismo tardio”, ou Von Hayek “pós-História”].

      Os promotores  de tal “inversão” estão lá, nas redações dos  grandes estúdios de televisão – escrevendo folhetins, sob as leis inexoráveis – tão éticas quanto uma dose de testosterona – do “amoralista” cânon-Wall-Street deste terceiro milênio: o  Ibope.  

(A continuação deste texto já se acha digitada[/gravada] – é só ligar a tevê, no horário “nobre” tal, no canal tal.  Ali você verá a Dignidade mais degradada do que a rapaziada do Inferno de Dante [“degradação” que, depois de degluti-la, a massa haverá de portar em seu DNA até a consumpção dos tempos].)

Nota: texto – já publicado em jornal – que integrará futuro livro de crônicas.

helmuthwisbeck@gmail.com

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