Lembrança

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Por Célio Furtado

Escrevo nessa manhã chuvosa de domingo, ouvindo uma música e pensando na boa semana que vivi. O intelectual deve pensar o seu tempo, sentir e perceber os sinais, os “recados” que surgem de maneira nem sempre explícita. As circunstâncias são compostas de sutilezas, e, quase sempre, precisamos de paz e silencio para captar os movimentos sutis da realidade.

Tenho dificuldade em pensar o momento presente, o aqui e agora, pois passado e presente se misturam e a memória não descansa nunca, pois estamos mergulhados no tempo histórico, na cronologia e também no “kayrós”, no que surge e acontece, e, torna-se difícil estabelecer uma tessitura nítida e definida.

Muitas pessoas, leitores generosos de meus textos, classificam-me como um memorialista, isso é bom, sinto-me lisonjeado, pois o passado fascina sempre, os porões e os sótãos, as ruas de paralelepípedo, a chuva e o cheirinho de fritura de bolo de banana nas tardes inigualáveis de Itajaí.

Também, o retorno da escola, do grupo, do Victor Meirelles, podendo escolher a trajetória, pela rua 7 ou pela nova e deserta avenida Marcos Konder. Ambos os caminhos eram atraentes para as crianças que moravam no caminho da Fazenda, muitos após o trilho da estrada de ferro.

Pela avenida nova havia as tiriricas, as cobras d’água, as saracuras e as rãs. Muitos acreditavam que nas tiriricas, no caule, quase na raiz havia um “branquinho” comestível, como se fosse um palmito; comíamos e ninguém morreu, aparentemente.

Bem, o assunto morte já era mais familiar na rua 7, o hospital e maternidade, o necrotério, de acesso fácil, onde poderíamos ver os mortos do dia, corpos imóveis, o rosto descoberto e a emoção e curiosidade ao ver um corpo morto, desconhecido ou não.

Havia no Hospital, também, pelo ar, o cheirinho da comida dos doentes, a fumaça da cozinha, o cheiro das canjas, o sabor do tempero que permanece até hoje quando assisto a Santa Missa na Capela do Hospital, tudo ainda nos remete à década de 60. Sim, os alunos do Victor Meirelles, de calça curta, azul marinho, a camisa branca e no bolso a sigla VM.

Sim, esqueci de um detalhe importante, o campo do Marcílio Dias, o rubro anil, os treinos e as briguinhas (pauleira) nos espaços de areia, próximo ao poste do refletor.

O Marcilio tinha refletor e arquibancada de concreto e o Barroso não, e eu era barrosista, alviverde. A gente sabia o nome de muitos jogadores, o treino e a possibilidade de um dia usar uma chuteira com as suas travas e a bola número 5.

Pelo lado da avenida tinha a entrada também para o campo, as casas do roupeiro e de um casal de mudos, e tudo era muito mágico e belo, as roupas dos atletas no varal, e as chuteiras engraxadas no sol, o mundo maravilhoso do futebol.

No caminho, a chácara do Hospital, as frutas, o apito do trem chegando. Escrever é bom, tem um caráter psicanalítico, pois, sabemos que as “palavras são drenos”. Boa semana!

Célio Furtado é ex-professor da Universidade do Vale do Itajaí, comunicador e consultor de empresas.
E-mail: celio.furtado@univali.br

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